Instalação de Paulo Neves
“Máquina de fazer rios e animar espíritos”

 

Há setenta anos desceu de Arões, que fica ainda acima de Arouca, um moço que veio trabalhar para as terras do meu Avô em Cucujães. O Quim trazia consigo os saberes da serra, coisas nunca antes imaginadas nas terras planas de Santa Maria, extraordinários inventos, que a serra engendrava. Um dos mais bonitos era afinal um piano movido a água, em que martelos gigantes basculavam pela gravidade de colheres em madeira que, enchendo lentamente de água, caíam em desequilíbrio sobre sonantes latas. “Malhôs”, como se chamavam, serviam para espantar a natureza, dando fuga aos coelhos bravos que entravam nas hortas e aos lobos famintos que rondavam as casas. Junto de minas ou de levadas, conduzia-se a água por caleja até à máquina, deixando-a a tocar sozinha, como uma máquina de marcar o ritmo, das sonoridades da serra. Recriar o Malhôs foi sobretudo um exercício de imaginarius, movido pelo desejo de reconstruir as paisagens que já não há. Esta é uma máquina de fazer rios, que também serve para animar espíritos.