Conferência Imaginar: cultura, coexistência e cidade num mundo instável

Imaginar: cultura, coexistência e cidade num mundo instável

23 maio | 14h30
Auditório da Biblioteca Municipal

Charles Landry [UK]

Moderação: Isabel Lucas [PT]

PENSAMENTO
105’

A cidade nunca está em silêncio. Comunica através das montras e dos recantos das praças, dos encontros fortuitos, através de negociações, celebrações e conflitos, através dos códigos invisíveis que organizam a forma como nos encontramos, partilhamos, discutimos e cuidamos. Cada pessoa, cada negócio, cada interação deixa um rasto. Moldamos a cidade através das nossas decisões e hábitos, e a cidade, por sua vez, transforma-nos, influenciando a forma como percebemos a realidade e como nos relacionamos uns com os outros. Se esta influência mútua é constante, a questão não é se estamos envolvidos, mas para onde nos conduz esta trajetória partilhada.

Num tempo marcado pela instabilidade, imaginar exige mais do que otimismo ou a manutenção discreta do que já não se sustenta. O discurso público está saturado de urgência, e a linguagem da adaptação substitui frequentemente a linguagem da visão. O presente parece comprimido, denso de crises sobrepostas e narrativas concorrentes. Neste ambiente, a imaginação corre o risco de se reduzir a pequenos gestos que estabilizam sem transformar. Esta conferência propõe outra perspetiva, abordando o imaginar como um ato cívico deliberado que aceita a fricção, a ambiguidade e a responsabilidade como condições necessárias para uma mudança com sentido.

É na cidade que estas tensões se materializam. Não é apenas um ambiente físico, mas uma teia complexa de sistemas económicos, enquadramentos institucionais e narrativas culturais que moldam a experiência coletiva. A coexistência concretiza-se diariamente. Quem ocupa o espaço, quem define o valor, quem participa e quem permanece por ouvir? A cultura não é periférica a este processo. Enquadra a pertença, a diferença e a negociação do comum, moldando a profundidade e a intensidade da experiência urbana.

O trabalho de Charles Landry oferece uma visão relevante para abordar estas questões. A sua reflexão sobre a cidade criativa desafia os contextos urbanos a libertarem o potencial humano e institucional frequentemente condicionado por sistemas rígidos e modos de pensamento convencionais. A Conferência Imaginarius convoca esta perspetiva não para oferecer respostas imediatas, mas para criar um espaço de reflexão partilhada. Para além de estratégias e políticas, existe uma camada mais imediata da vida urbana, aquela que se sente antes de se explicar. Este encontro convida-nos a envolver-nos com essa dimensão da cidade, reconhecendo que imaginar deve enraizar-se não apenas na análise, mas na experiência vivida.

Charles Landry é uma figura de referência no desenvolvimento e inovação das cidades, tendo colaborado com cidades em todo o mundo. É sobretudo conhecido pelo livro The Creative City: A Toolkit for Urban Innovators e por The Art of City Making. O seu trabalho propõe uma nova forma de pensar a construção da cidade, explorando o mundo nómada, as cidades interculturais, os recursos culturais e a economia criativa, a psicologia dos espaços urbanos, o risco e a fragilidade, bem como a medição da criatividade. Em 2003 desenvolveu o conceito de “creative bureaucracy” e defendeu que as administrações públicas precisavam de se tornar mais imaginativas para recuperar a confiança dos cidadãos e das partes interessadas, revalorizando assim o bem público. Numa fase inicial, a ideia foi desvalorizada. Contudo, a publicação do livro Creative Bureaucracy em 2017, coescrito com Margie Caust, e o lançamento, em 2018, do Creative Bureaucracy Festival, em Berlim, que cofundou com Sebastian Turner, deram credibilidade e impulso a este conceito.


Isabel Lucas é jornalista e crítica literária. Licenciada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, começou a fazer jornalismo na televisão e passou, entretanto, pelas redações de alguns dos principais jornais e revistas portugueses. Freelancer desde 2012, escreve regularmente para o jornal Público, colabora com a revista Ler, com a Quatro Cinco Um e com a Antena 3. Tem publicado em diversos títulos nacionais e internacionais. É autora dos livros Isabel_Lucas — Conversas com Vicente Jorge Silva (Temas e Debates, 2013), Viagem ao sonho americano, Viagem ao país do futuro e Conversas com escritores, estes três publicados pela Companhia das Letras. É ainda coautora de vários livros na área da dança e das artes plásticas. Em 2022, foi curadora da programação do Pavilhão de Portugal na Bienal do Livro de São Paulo. É curadora do Prémio Oceanos de Literatura e professora-adjunta convidada da Escola Superior de Comunicação Social, do Instituto Politécnico de Lisboa. Em 2021, venceu a primeira edição do Prémio Jornalismo de Excelência Vicente Jorge Silva.

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